A importância de uma boa rotina de segurança
como estão as rotinas, os procedimentos e as políticas da sua biblioteca?
O roubo em bibliotecas (ou em instituições culturais em geral, como arquivos ou museus) não é algo novo — aliás, não surgiu nem neste milênio. Casson (2018)1 relata que algumas tabuletas de argila da biblioteca do rei Assurbanípal (ali por volta do século VII a.C.) possuíam inscrições que visavam desencorajar possíveis ladrões2 (prática que, aliás, se estendeu por muitos séculos); Vallejo (2022)3 nos conta brevemente sobre os livros acorrentados nas bibliotecas medievais e Barbier (2023)4 menciona as estantes da biblioteca do Mosteiro San Lorenzo do Escorial (Espanha), que foram gradeadas em meados do século XVIII por questões de segurança.
Do mesmo jeito, o acontecimento de roubos em bibliotecas também não é exclusivo do Brasil: já aconteceu na Inglaterra, na Itália (cometido pelo diretor de uma biblioteca), nos Estados Unidos e em vários países da Europa, entre outros locais5.

Essa preocupação, portanto, acompanha bibliotecários, museólogos e arquivistas há centenas de anos; é simultaneamente um risco que pode não ser tão urgente, dependendo do contexto e do alvo, e um risco que tem um efeito devastador: se acontecer, o item estará, muito provavelmente, perdido para sempre — apesar de ser possível recuperar um objeto perdido por ações de roubo, não é tão comum e pode demorar bastante tempo.
O que podemos fazer, então, para evitar esse risco, evitar que nossos livros sejam roubados, às vezes, bem debaixo de nossos olhos?
Para a maioria das pessoas, a primeira resposta para essa pergunta será o investimento em câmeras modernas e alarmes sensíveis, que possam auxiliar na detecção de possíveis extrações do acervo da biblioteca. E não está errado: câmeras e alarmes são muito importantes.
Mas, e eu falo isso também em um artigo publicado na Revista da ABDF (Araujo, 2020)6, por que não pensar na segurança PREVENTIVA do acervo, antes dos alarmes e câmeras?


Quando falo em “segurança preventiva”, estou me referindo àquelas rotinas mais básicas da biblioteca: registro de quando o usuário entra e sai, proibição de bolsas e mochilas, portas e janelas que fecham da maneira correta, chaves bem guardadas e um controle de onde estão, coisas assim. Aliás — como estão essas rotinas na sua biblioteca?
No artigo da Revista ABDF, argumento o uso de medidas de segurança preventiva a partir do processo de gerenciamento de riscos, considerando um foco nos processos e rotinas que podem nos auxiliar a não depender apenas das câmeras e alarmes.
A segurança preventiva a partir do gerenciamento de riscos foca em ações de tratamento que considerem os 5 estágios de controle de riscos (Evitar, Bloquear, Detectar, Responder, Recuperar — principalmente os 3 primeiros) e os 6 níveis de envoltório do acervo (Região, Entorno, Edifício, Sala, Mobiliário, Embalagem/Suporte), e no artigo o tratamento sugerido são as “boas práticas de segurança preventiva”, resumidas por Azevedo (2018) em três tipos de ações:
Determinar níveis de acesso ao acervo [mais pertinente no caso de coleções especiais; para acervo geral uma alternativa é a determinação do que pode ou não ser levado como empréstimo];
Determinar normas para a consulta ao acervo; e
Determinar normas para consultas técnicas ao acervo.
Como o foco do artigo são as coleções especiais em bibliotecas, pode ser que essas boas práticas sejam muito mais pertinentes a esse tipo específico de coleção; de toda forma, muito pode ser feito considerando a segurança preventiva do acervo geral; basta adaptarmos as recomendações.

No meu TCC (Araujo, 2019)7, falei sobre segurança em coleções especiais e elenquei algumas recomendações que são úteis para o acervo como um todo, como podemos observar abaixo a partir de algumas perguntas norteadoras:
Como está a situação física do prédio — por exemplo, as janelas estão funcionando bem, ou seja, fechando adequadamente? E as portas? Quem tem a chave das portas, como controla esse acesso? E o telhado, como está? Etc.
Onde estão guardadas as chaves de acesso às áreas do prédio, incluindo áreas de coleção especial, caso existam? Quem pode acessar essas chaves e essas áreas? Existe um registro de acesso?
Como é a entrada do usuário na biblioteca? Precisa de registro? Você deixa entrar com bolsas ou mochilas?
Quais são as medidas vigentes para prevenção de furtos, roubos ou vandalismos?
Existem barreiras nas janelas e portas?
Qual é a instrução ao usuário sobre o uso do acervo?
Como é a identificação das obras (etiquetas, inventário, etc.)? Se o livro da sua biblioteca for roubado e depois encontrado, você consegue provar que ele pertencia a essa biblioteca mesmo?
Você ou outra pessoa da sua equipe sabe identificar um roubo ou furto em andamento? Sabe quem chamar e quem informar primeiro?
Etc.!
“O desastre resultante de roubo ou mutilação pode ser tão devastador para as coleções e para a moral da equipe quanto qualquer desastre natural”
(Allen, 1990 apud Wilkie Jr., 2011, p. 1, tradução nossa)
(Aliás, fica a indicação do livro organizado por Everett Wilkie Jr., “Guide to security considerations and practices for rare book, manuscript, and special collection libraries”, publicado em 2011, de onde essa citação e a próxima foram retiradas. Apesar de focado nas coleções especiais e coleções de obras raras, muitas recomendações podem ser adaptadas para o acervo geral).
É claro que essas medidas de segurança preventiva não são tudo — muitas vezes, o roubo acontece e nem percebemos, ou não podemos fazer nada a respeito no momento da ocorrência, ou nem estamos na biblioteca; no que vemos muito claramente a importância de equipamentos como câmeras e alarmes, para nos auxiliar no entendimento da ocorrência, na resposta rápida e na identificação dos responsáveis, como o caso do roubo no Museu do Louvre no início do ano, por exemplo.
Nesses casos, o mais importante é a preparação da resposta, ou seja, as ações pós-risco, pós-ocorrência: quem chamar (primeiro, segundo, terceiro…); quais autoridades informar; a comunicação ao público; o preparo para a disrupção (ou não, dependendo de como ocorreu o roubo) das rotinas da biblioteca, entre outros. É assunto para outra edição, mas eu falo um pouco sobre a preparação para emergências no capítulo 5, subseção 5.2, da minha dissertação (Araujo, 2022)8.
Segurança não é apenas fechaduras chiques, detectores de movimento, alarmes […]; é um estado de espírito que deveria permear todas as operações […]. Todos os dispositivos chiques no mundo serão de pouca serventia se políticas, procedimentos e atividades forem frouxos e apresentarem uma atitude relaxada para os pesquisadores.
(Thinkhaus-Randall apud Wilkie Jr., 2011, p. 1, tradução nossa)
Por fim, observamos que, muitas (muitas!) vezes, a segurança física da biblioteca pode ser bastante ajudada por simples ações de mudança ou estabelecimento de rotinas, normas e regras, ou seja, por ações de segurança preventiva — que dependem de nada ou muito pouco de tecnologias como câmeras e alarmes, apesar dessas tecnologias serem importantíssimas.
Cada biblioteca deve olhar para si e ver que rotinas podem ser aprimoradas ou implementadas, com base na literatura existente, em visitas técnicas a outras bibliotecas e em sua própria experiência.
VI POR AÍ… EM MAIO E JUNHO!

A preservação documental também é uma questão de segurança [Post Instagram/Arquivo Central UFSC];
Você sabe o que é ciclo curatorial? [Post Instagram/Museu do Ipiranga];
5 videos introducing the guardians of textile heritage [Post Instagram/European Royal Residences];
Como proteger seus livros dos fungos? [Post Instagram/HUBDOC];
Por dentro do museu: como as obras são cuidadas? [Post Instagram/Museu do Ipiranga];
DHPS Tips: Before you start a digitization project [Post Blog/DHPSNY Blog];
The Conceptual Fonds and the Physical Collection, de Geoffrey Yao. Archivaria, v. 73, abr. 2012, p. 43-80. [Leitura para a tese, rs];
Cuide dos seus livros, com dicas da museologia da Casa Museu Ema Klabin [Post Instagram/Casa Museu Ema Klabin];
95 percent of museums’ collections are hidden from view. Is “open storage” a real solution — or a cop-out? [Post/Art in America];
Um erro comum que as pessoas cometem tentando salvar os livros e outros documentos de suas bibliotecas pessoais [Post Instagram/Smithsonian Libraries, em inglês].
CASSON, Lionel. Bibliotecas no mundo antigo. São Paulo: Vestígio, 2018.
“Tabuleta de argila de Assurbanípal, Rei do Mundo, Rei da Assíria […]. Ashur Rei dos Deuses! Quem quer que remova [a tabuleta], escreva seu nome em lugar de meu nome, possa Ashur e Ninlil, irritado e desgostoso, desmoralizá-lo, apagar seu nome, sua semente, na terra” (Casson, 2018, p. 23).
VALLEJO, Irene. O infinito em um junco: a invenção dos livros no mundo antigo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022. 496 p.
BARBIER, Frédéric. História das bibliotecas: de Alexandria às bibliotecas virtuais. São Paulo: EdUSP, 2023. 400 p.
Leia algumas matérias sobre esses casos: (1) https://www.finebooksmagazine.com/fine-books-news/thieves-steal-over-160-rare-books-major-heist ; (2) https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/italy/9596240/Italian-library-director-accused-of-stealing-works-by-Galileo-and-other-books.html ; (3) https://www.smithsonianmag.com/arts-culture/theft-carnegie-library-books-maps-artworks-180975506/ ; e (4) https://www.miamiherald.com/news/nation-world/world/article288006900.html.
ARAUJO, Jullyana. A segurança física de coleções especiais. Revista Eletrônica da ABDF, v. 4, n. esp., p. 165-185, 2020. Disponível em: https://brapci.inf.br/v/166169. Acesso em: 6 jul. 2026.
ARAUJO, Jullyana. A segurança física de coleções especiais: gerenciamento de risco na Biblioteca Central da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. 124 f. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em Biblioteconomia) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2019.
ARAUJO, Jullyana.. Coleções Especiais em bibliotecas universitárias: riscos e preservação do patrimônio. Dissertação (Mestrado Profissional em Preservação de Acervos de Ciência e Tecnologia) – Museu de Astronomia e Ciências Afins. Rio de Janeiro, 2022. Disponível em: http://site.mast.br/ppact/2022/dissertacao-completa/jullyana-monteiro-guimaraes-araujo.pdf. Acesso em: 6 jul. 2026.


