O Poison Book Project e a importância da materialidade histórica do livro
ou: o livro é muito mais que o seu conteúdo
Em 2023, eu postei no Preserva sobre os “livros verdes envenenados” e as pesquisas realizadas sobre esse assunto e sobre/com esses livros por meio do Poison Book Project (‘Projeto Livro Venenoso’, em tradução bem livre), uma iniciativa do Winterthur Museum, Garden & Library junto à Universidade de Delaware, nos Estados Unidos.

A ideia desse vídeo veio de outro vídeo, da Dra. Amy Boyington, historiadora, autora e criadora de conteúdo sobre a realeza europeia. Nesse vídeo específico, ela fala sobre a moda do verde-esmeralda na Era Vitoriana e sobre como esse tom de verde era alcançado com a utilização do arsênico, cujos riscos para a saúde ainda eram desconhecidos. A historiadora conta que até a Rainha Vitória usava peças em tons de verde, o que comprova a moda do tom na época.
O que se iniciou com as roupas e decorações da época obviamente se estendeu aos livros: quem podia logo mandou encadernar seus livros no mais verde dos tecidos, resultando em lindíssimas encadernações verde-esmeralda — tom que prontamente se tornou moda entre aqueles que podiam bancá-lo, mas que só podia ser alcançado utilizando o arsênico (e, possívelmente, outras substâncias igualmente tóxicas) na composição da tinta.
Lembro que o vídeo da Dra. Boyington, na época, me deixou com dois pensamentos: primeiro, como é interessante perceber a influência do dia a dia nos livros e nas bibliotecas — frequentemente achamos que estamos passando ilesos a certas tendências e pensamentos, mas não é o caso, na maioria das vezes; segundo, como a materialidade do livro pode refletir essas tendências de maneira muito mais direta do que às vezes percebemos, e como é relevante, nesse sentido, ver os livros para além do conteúdo e chegar naquilo que ele pode nos dizer se olharmos para eles como um objeto que percorreu um caminho e foi afetado por escolhas - direta ou indiretamente, conscientes ou não - até chegar até nós, seja “nós” indivíduo ou ou “nós” instituição.

Antes de falarmos mais sobre essa materialidade e o livro como objeto, algo interessante de pensar sobre a questão do verde ‘venenoso’ é que a tendência do uso desses tecidos para encadernar livros foi só mais uma em um longo percurso de tendências de decoração de manuscritos e impressos, dentre as quais podemos citar as iluminuras, as capitais historiadas, as encadernações cravejadas de jóias ou com brasões, o uso de um ou outro tipo de letra na impressão, entre outros.1
Aliás, a história do livro nos mostra como eles foram (e ainda são) influenciados pelas mudanças culturais da sociedade, traduzidas tanto em questões relacionadas à facilidade de fabricação e uso, que é o caso do uso do papel, do formato códice, da página de rosto; como de apresentação, que é onde pensamos na disposição do texto, nas letras utilizadas, nas decorações, na encadernação, etc.
E, ainda que em pouco tempo a letalidade de todo esse verde tenha sido descoberta e seu uso suspenso, esses livros continuaram circulando por diversas bibliotecas, principalmente na Inglaterra, onde a tendência foi mais forte, mas chegando em outros países da Europa e nas Américas, como nos Estados Unidos e, talvez, ao Brasil, visto que muitas de nossas bibliotecas começaram seus acervos com livros originários desses locais.
Aí chegamos ao Poison Book Project e à importância de enxergarmos o livro como um objeto com materialidade histórica específica.

Originado no âmbito da Biblioteca, Jardim e Museu Winterthur, junto à Universidade de Delaware, nos Estados Unidos, o “Poison Book Project” foi criado para investigar o uso de pigmentos potencialmente tóxicos em encadernações de tecido do século XIX, principalmente o arsênico, que dá origem ao ‘verde venenoso’, mas também outros, como o mercúrio e o chumbo. Além disso, o projeto busca ainda explorar os riscos associados ao manuseio desse tipo de encadernação, presente em diversas bibliotecas.
À primeira vista, temos a impressão de que a preocupação primária do Projeto é garantir a saúde daqueles que precisam lidar com esses livros (afinal, é uma substância perigosa, mesmo que em baixa proporção) e ainda a preservação correta dos próprios ‘livros envenenados’ e dos outros ao redor, procurando a maneira correta de manusear, de permitir o acesso, de armazenar, etc.
No entanto, mais do que isso - que já é um objetivo importantíssimo -, o Projeto é uma investigação sobre a materialidade do livro em um momento específico: o século XIX, talvez mais especificamente a Era Vitoriana na Inglaterra, quando se populariza a moda desse verde, que foi utilizado em acessórios de cabelo, papéis de parede, vestimentas e, claro, livros. O uso dos tecidos verdes, na moda da época, em encadernações de livros, deixa explícito o entrelaçamento entre os contextos culturais e sociais de um período e a história do livro, este que não passa ileso desses contextos.
A existência desses livros, por si só, pode nos permitir fazer algumas inferências: que as pessoas que possuíram esses livros estavam tanto por dentro das tendências e queriam tanto segui-la que mandaram encadernar seus livros de acordo; confirma a existência da própria tendência; podemos tentar analisar os assuntos dos livros que foram efetivamente encadernados dessa forma (eram temas aleatórios ou possuíam algo em comum?); podemos ainda fazer inferências sobre as redes de sociabilidade existentes entre indivíduos e/ou instituições da época, dependendo do local geográfico onde esses livros são encontrados, dentre algumas outras possibilidades de estudos e conslusões.
Dessa maneira, se olharmos de novo, percebemos que é um Projeto bastante relevante para estudar a materialidade e a história do livro (ou a história da materialidade do livro?!) dentro de um contexto que, por suas especificidades, não se repete, mas que, até pelas redes de sociabilidade sempre existentes, acaba tendo repercuções em algumas bibliotecas ao redor do mundo, ainda que mais de um século tenha se passado.

Nessa perspectiva, o livro é visto como um objeto que percorreu e pode ainda estar percorrendo um caminho específico, próprio, que costuma ser evidenciado por sua materialidade e por suas marcas extrínsecas: o papel escolhido, a encadernação, o tipo de fonte utilizada, disposição do texto, ilustrações, carimbos, assinaturas, colagens, anotações em geral. Cataldo e Loureiro, em artigo de 20192, afirmam que os livros, sozinhos, “falam de suas próprias histórias até integrar o grupo”, ou seja, ainda que façam parte de uma coleção e/ou de um acervo, o livro por si só pode nos auxiliar a esclarecer sua trajetória e suas memórias ao longo de seu tempo de existência, da sua criação ao seu contexto atual.
“[…] O livro configura-se como um objeto cuja materialidade dialoga conosco e a informação vai além do texto registrado e, por fim, que esse livro como objeto é também fonte e documento com possibilidades múltiplas” (Cataldo; Loureiro, 2019, n. p.)
Ao ser percebido e ser estudado para além do conteúdo, o livro se torna objeto, em um movimento que não é natural, ou seja, o livro não nasce objeto, mas se transforma a partir de perspectivas que são colocadas sobre ele, conforme nos afirma Abraham Moles3 e como argumentado por Loureiro (2022), para quem os livros podem ser analisados como objetos “desde que percebidos e tratados como tal” (p. 240)4.
Assim, estudar a história do livro não é apenas estudar a história do surgimento, ou melhor, da evolução, do mais popular suporte de escrita que temos até hoje, mas também estudar a história e a memória do desenvolvimento social, cultural e político de diversas sociedades ao longo do tempo e como tudo isso ainda nos afeta hoje. Enquanto bibliotecários, esse é um estudo importante para entendermos o tipo de item com o qual mais trabalhamos, o fazer, mas, principalmente, para compreendermos a nossa própria profissão, o nosso ser.
VI POR AÍ… NOS ÚLTIMOS MESES!
The Poison Book Project: Arsenic in Mass-Produced 19th Century Cloth Bookbinding, pela Dra. Melissa Tedone no canal do YouTube “PhilaAthenaeum” (Vídeo, 55min18s)
Direção do Arquivo Nacional foi alertada sobre contaminação em acervo há mais de dois anos, no Giro da Arquivo (Post);
Arquivologia e biossegurança: preservando acervos, protegendo vidas (Podcast ECCOA, ep. 97, no Spotify);
POV: Você está em um museu de arte, mas é engenheiro e liga mais para os suportes de proteção a terremotos que para a arte em si, por anthony_in_italy (Reel/IG);
Limpando obras no Museu da Imigração, no Instagram do Museu da Imigração (Reel);
Bastidores de uma das áreas de guarda do Anima Mundi Museum, no Vaticano, por Vatican Museums no Instagram (Reel);
No RS, Iphan, Iphae e MP do estado lançam guia para proteger bens culturais de desastres (Post com link para o Guia);
Por dentro da conservação no Instituto Ziraldo, por Instituto Ziraldo no Instagram (Reel);
Tradição, cultura e história em versos: práticas de conservação e preservação em folhetos de codel, por Geysa Nascimento, Everton de Lima e Lucas Santos (Artigo);
Herança ou patrimônio? O que realmente definimos como nosso legado cultural?, por Andréa Alves (Artigo).
O QUE ESTOU LENDO?
História das bibliotecas: de Alexandria às bibliotecas virtuais, de Fredéric Barbier.
Esse caminho, aliás, está longe de acabar, mesmo hoje, na era digital: ainda vemos livros com as bordas pintadas, capas especiais, encadernações trabalhadas, que vão de acordo com o que se espera do mercado editorial em determinado momento.
AZEVEDO, Fabiano Cataldo; LOUREIRO, Maria Lucia Niemeyer Matheus. Afinal, os objetos falam? Reflexões sobre objetos, coleções e memória. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, 20., 2019, Florianópolis, SC. Disponível em: https://conferencias.ufsc.br/index.php/enancib/2019/paper/view/951/707. Acesso em: 15 jan. 2026.
Moles, em texto publicado no livro “Semiologia dos Objetos” de 1972, considera o objeto como algo “[...] quase nada natural. Não se falará de uma pedra, [....] ou de uma árvore como objetos, antes porém como de coisas. A pedra só se tornará objeto quando promovida ao posto de pêso para papéis” (Moles, 1972, p. 15, grifo do autor).
LOUREIRO, Maria Lucia de Niemeyer Matheus Loureiro. O livro como objeto: uma abordagem para além do conteúdo. PontodeAcesso, Salvador, v. 16, n. 3, p. 239–261, 2022. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/revistaici/article/view/52309. Acesso em: 20 jan. 2026.



